abril 04, 2012

A outra onda da literatura nórdica

A solidão, a ironia, a sensação de mal-estar por trás da imagem de aparente normalidade: é isto a “literatura nórdica”?
Nos últimos dois anos publicaram-se mais autores do que no último meio século. Só a “rentrée” deste Outono trouxe seis. Depois da vaga de romances policiais em que o gelo e a neve estão sempre presentes no local do crime, chegou a outra onda da literatura nórdica.

(José Riço Direitinho)



Quando há meia dúzia de anos a editora Cavalo de Ferro se aventurou a publicar regularmente autores nórdicos, poucos eram, até então, os que tinham sido traduzidos para português desde os anos 50. De entre os autores já considerados clássicos, pouco mais restava do que algumas traduções avulsas – espalhadas a esmo por diferentes editoras – dos livros da sueca Selma Lagerlöf, e devido ao êxito de “A Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson”. Referimos
a década de 50 porque foi nessa época, curiosamente, que a literatura escandinava teve maior divulgação em Portugal, em grande parte graças ao que se ia publicando sobretudo em França. “Na década de 50, os autores nórdicos por cá divulgados passavam por ser uma extensão dos autores franceses. As traduções, feitas na sua maioria a partir do francês, eram, quase sempre – quando as comparamos agora com o original sueco, norueguês, ou outro – de qualidade duvidosa”, diz Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro. Mas a moda parece ter passado depressa, pelo menos por cá, e grandes clássicos da literatura europeia, obras que influenciaram gerações de escritores e de leitores por todo o mundo, ficaram por traduzir. Romances como
Fome”, do norueguês Knut Hamsun – reconhecido como “o pai da literatura
moderna” e que influenciou as obras de Kafka, Thomas Mann, Herman Hess, entre outros – ou “Gente Independente”, do islandês Halldór Laxness – tido por alguns como o “avô inocente do realismo mágico latino-americano”, por causa da forte influência em Rulfo e em García Marquez – tiveram ainda que esperar durante muitas décadas para serem traduzidos para português, o que só viria a acontecer há poucos anos. Foi este nicho de mercado – não apenas o da literatura nórdica, mas também o de outras literaturas de línguas periféricas – que a Cavalo de Ferro veio ocupar. “Os editores são animais medrosos, arriscam sempre com muito cuidado os poucos passeios dados fora da jaula”, diz Diogo Madre Deus. “O mercado em Portugal deu sempre pouco azo a mártires iconoclastas.”

Apesar de alguns autores clássicos – e também contemporâneos, como Lars Saabye Christensen ou Jostein Gaarder – terem tido várias obras traduzidas ainda antes do “fenômeno Stieg Larsson”, foi só depois da chegada da “onda de policiais nórdicos”, coincidência ou não, que começou esta espécie de “mini-boom” de literatura escandinava – note-se que só na “rentrée” deste ano foram publicados meia dúzia de livros de autores do Norte da Europa (excluindo os
“policiais”): “O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu”, de Jonas Jonasson (Porto Editora), “Uma Vasta e Deserta Paisagem, de Kjell Askildsen, “A Visita do Médico Real”, de
Per Olov Enquist (ambos na Ahab), “A Arte de Chorar em Coro”, de Erling Jepsen, “Quando Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou”, de Kjersti Annesdatter Skomsvold (ambos na
Eucleia), e “A Purga”, da finlandesa Sofi Oksanen (Alfaguara).

Tiago Szabo, editor da Ahab, e um dos responsáveis pela publicação em Portugal de alguns dos mais importantes nomes das letras nórdicas atuais (Kjell Askildsen, Dag Solstad e Per Olov Enquist), é da opinião que o êxito da trilogia “Millennium” acabou por ser um grande impulso à
publicação, e que graças aos seus efeitos colaterais “os leitores descobriram que a literatura dos países escandinavos não se resume apenas ao gênero policial, e a verdade é que se têm mostrado mais abertos a conhecer outros escritores, clássicos e contemporâneos, de maior espessura.” Mas alguns dos motivos que sempre dificultaram uma maior divulgação das letras nórdicas continuam a existir. O fato de a grande maioria dos editores não ler línguas escandinavas, nem ter um conselheiro editorial de confiança que o faça, obriga a que seja preciso esperar pela tradução para outra língua mais comum, normalmente a inglesa, para poder avaliar a obra. Depois, persiste ainda a dificuldade em encontrar tradutores, pois, como nota o editor da Ahab, é difícil combinar num tradutor uma língua como o português com qualquer uma das faladas nos países nórdicos. “É uma combinação exótica e rara. Isto leva-nos a outro problema: como os tradutores se contam pelos dedos de uma mão, a produção dos livros é vagarosa.”

Mas também há editores cuja vantagem é o conhecimento dessas línguas, sobretudo as escandinavas: é o caso de João Reis, da Eucleia, que dos títulos publicados este ano metade é
de nórdicos – dois autores clássicos (o norueguês Alexander Kielland e o sueco Hjalmar Bergman) e dois contemporâneos (o dinamarquês Jepsen e a norueguesa Skomsvold, já nomeados atrás). Curiosamente, os quatro foram traduzidos pelo editor João Reis. Sobre as razões, óbvias, da dominância de autores nórdicos no ainda pequeno catálogo da Eucleia, diz: “Para além de existir um rico filão de autores por explorar, tenho facilidade em os descobrir, pois posso, na maioria dos casos, lê-los na língua original e traduzi-los eu próprio. No futuro, espero aumentar ainda mais a proporção de autores nórdicos nonosso catálogo.”


Tristeza ou melancolia

É correto falar de “literatura nórdica” como um todo? O que é que a torna diferente das outras literaturas? Entre outras coisas, há quem aponte a tendência para um aprofundamento lúcido dos problemas do indivíduo (a solidão, vícios como o alcoolismo, ou tão-só a procura de um qualquer sentido para a vida), associada a umfeito de frases incisivas, secas e curtas – que segundo o tradutor João Reis, deriva da gramática e da sintaxe das línguas escandinavas –, uma escrita transparente raramente isenta de ironia e que se inscreve numa tradição de narrativa urbana em que a natureza está sempre presente. A escrita nórdica explora a “sensação de mal-estar por trás da imagem de perfeição e aparente normalidade, neste sentido, é uma literatura única, singular”, diz Tiago Szabo, da Ahab. “É apegada à realidade, aos problemas da vida quotidiana e, ao mesmo tempo, muito íntima e melancólica, tendo as relações familiares um grande peso, sobretudo os conflitos latentes que as ensombram.”

João Reis, da Eucleia, contesta um pouco a opinião de que exista uma “literatura nórdica”, com características comuns, produzida nos diferentes países: “A literatura nórdica pode ser tomada como um todo em certos aspectos, mas existem particularidades. Por exemplo, considero a literatura finlandesa bastante diferente da escandinava, tanto por questões culturais, como por questões linguísticas.” No entanto, aponta várias características comuns, como sejam “a importância da natureza e do clima sobre a vida humana e os sentimentos, um humor típico – bem diferente do português – em que não há censura inconsciente, e que por vezes é bastante negro, e ainda a crítica religiosa, que é quase constante.”

Quando em Maio de 2010, em Oslo, o norueguês Kjell Askildsen falou ao Ípsilon (a propósito da publicação em Portugal de “Um Repentino Pensamento Libertador”), indignou-se bastante – aqui há que descontar a parte histriónica que usa para compor a imagem que cultiva, de um soturno e ferido “lobo solitário” – quando lhe perguntámos se achava que a literatura nórdica era triste. E respondeu que não, que de modo algum. Ainda contrapusemos com a tristeza e a desilusão que habita nas personagens que ele cria, ao que, ainda agastado, respondeu: “Mas isso são as minhas personagens…”.

Mais tarde, tivemos a possibilidade de falar com o norueguês Dag Solstad e com o dinamarquês Erling Jepsen, que tiveram a mesma opinião. No entanto, autores como Kjersti Annesdatter Skomsvold ou Edvard Hoem entendem que esse sentimento seja, de fato, o que emerge das narrativas nórdicas, mas ressalvam que não se trata de uma “tristeza apática” (Hoem), antes de uma ambiência (onde as histórias têm lugar) que contribui para que esse sentimento se instale
como uma marca na vida das personagens. Quando lemos romances como “Pudor e Dignidade” (Ahab, 2010), de Dag Solstad, ou “A Arte de Chorar em Coro” (Eucleia, 2011), de Erling Jepsen, é difícil não se ficar com a sensação de uma estranha e singular espécie de tristeza. Ou talvez
aquilo seja apenas melancolia.

“A felicidade é um obstáculo quase insuperável, não é particularmente fértil como matéria-prima literária, o drama e o conflito oferecem muito mais para dizer. Creio que isto é comum à maior parte dos escritores, e não apenas uma característica dos nórdicos”, diz Tiago Szabo, da Ahab.
Assim sendo, não diria que a literatura nórdica seja mais triste. O que poderá ter alguma influência nessa percepção é o facto de se tratar, em termos gerais, de uma escrita seca, com laivos de ironia, por vezes gélida, como se estivesse imbuída do clima rigoroso desses países.” O que de certa maneira corrobora as palavras do escritor Edvard Hoem. Mas o editor da Eucleia, João Reis, discorda, pois não acha que os autores nórdicos tenham uma escrita mais triste. Diz que essa ideia pode vir da importância dada na literatura à natureza, ao clima, e a certos vícios, e “em parte isso também resulta do fato de existir um acesso relativamente limitado à literatura desses países, o que não permite ler uma grande parte do que por lá se pública.”

Esta nova “onda” parece ter chegado para ficar, pelo menos durante mais algum tempo, quem o garantem são os três editores com quem falamos, que já têm um número significativo de obras contratadas, ou em vias disso, para 2012. Tiago Szabo resume as razões: “é uma literatura de muita qualidade e pouco explorada, e uma prova disso é o Nobel ter ido este ano para um sueco ainda não publicado em Portugal. Depois, o fato de as traduções serem generosamente subvencionadas, o que permite reduzir os riscos comerciais.” O que em tempos negros conta muito.

http://www.swedenabroad.com/SelectImageX/241693/11209IpsilonLitNordica.pdf

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